Ansiedade – Sentindo os Cacos: Ep. 4
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O mérito pertence a quem recolheu os próprios cacos e decidiu construir novas histórias com eles.
Mais uma frase que aprendi com meus pais e continuo ensinando a meu filho. Sempre que ele me pede alguma coisa que eu, como pai e responsável, não permito, repito essas palavras. Mas essa frase também aparece diante de uma perda, uma decepção, ou uma frustração. Quem diz isso, na esmagadora maioria das vezes, está tentando ajudar. Quer mostrar que aquele sofrimento pode produzir algum aprendizado ou nos levar a um lugar diferente.
Mas, para quem a escuta, naquele exato momento, a frase pode soar como uma promessa feita por alguém que não precisará atravessá-la em nosso lugar. E muitas vezes recebe essa resposta:
“Você não sabe o que eu estou sentindo!”
Após uma experiência difícil, podemos amadurecer, estabelecer limites, mudar de direção ou descobrir uma força que ainda não conhecíamos. Mas foi realmente a dor que nos ensinou tudo isso?
Existe uma diferença entre aprender com aquilo que aconteceu e agradecer por aquilo que aconteceu. A dor não planejou nosso crescimento. Não apareceu carregando um plano de ensino, uma lista de exercícios e uma prova no final. Ela não teve nenhuma intenção pedagógica. Quem precisou compreender, reconstruir e continuar fomos nós.
Por isso, para mim:
O aprendizado é uma conquista de quem conseguiu atravessar a dor
Quando agradecemos à dor por tudo aquilo que construímos depois dela, corremos o risco de dar de bandeja ao sofrimento um mérito que, na verdade, é nosso.
Quem recolheu os cacos e entendeu o que havia acontecido? Você.
Mesmo que com a ajuda de pessoas queridas, quem mudou o caminho ou simplesmente suportou um dia depois do outro foi você.
A dor aconteceu, mas foi você quem precisou encontrar uma maneira de continuar.
Às vezes, olhamos para trás e percebemos que uma perda mudou nossa direção. Uma decepção nos afastou de uma relação que fazia mal. Um fracasso abriu espaço para outra oportunidade. Podemos reconhecer o valor daquilo que veio depois sem dizer que precisávamos sofrer para chegar até ali.
Ter sobrevivido a uma experiência não transforma essa experiência em algo bom. Também não prova que ela era necessária. Dizer que somos mais fortes hoje não significa que precisávamos ter sido quebrados ontem. Podemos gostar da pessoa que nos tornamos e, ainda assim, desejar que algumas coisas nunca tivessem acontecido.
Uma consequência positiva não apaga a violência, a injustiça, o abandono ou a tristeza que vieram antes dela.
O sofrimento faz parte da história, mas não precisa receber os créditos pelo que conseguimos construir depois. Não agradecer pela dor não significa ignorar tudo o que existiu ao redor dela. Podemos sentir gratidão por quem permaneceu ao nosso lado, por quem ofereceu ajuda, pelo cuidado que recebemos ou pela força que encontramos durante o caminho.
Alguém pode sofrer um acidente e não agradecer pelo acidente, mas pode agradecer por não sofrer ferimentos graves, pelo atendimento recebido, pela pessoa que parou para ajudar ou pela oportunidade de continuar vivendo. A gratidão não precisa ser dirigida àquilo que nos machucou. Ela pode estar nas mãos que nos ajudaram a levantar e na coragem que encontramos para pedir ajuda. Pode estar na possibilidade de reconstruir o que foi quebrado.
Algumas pessoas olham para as experiências difíceis que viveram e dizem, com sinceridade, que são gratas por elas. Esse sentimento é legítimo. O problema começa quando uma experiência pessoal se transforma em regra para os outros.
“Eu agradeci pela minha dor. Você também deveria agradecer pela sua.”
Escrevi neste texto aqui que a gratidão precisa de liberdade. O que ajudou uma pessoa a reorganizar sua história pode não fazer sentido para outra. Assim como não precisamos odiar para sempre aquilo que nos feriu, também não precisamos agradecer. Podemos apenas reconhecer que aconteceu, cuidar do que ficou e seguir nosso caminho.
Se alguma coisa boa nasceu depois, o mérito não pertence à dor.
Pertence a quem recolheu os próprios cacos e decidiu construir novas histórias com eles.
E você?
Você consegue reconhecer o que construiu depois da dor sem agradecer por aquilo que a causou?
Mais um caco espalhado por aí…
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Posso contar com você? #espalhandooscacos
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