Boicote
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Quando tudo vira espelho, nada transforma.
Nos capítulos mais recentes (4, 5 e 6, respectivamente) de Sociedade do Cansaço, Byung-Chul Han fala de uma sociedade que perdeu o contraste: tudo acelerado, tudo positivo, tudo igual. Um mundo liso, sem resistência, onde o “outro” desaparece e o indivíduo se fecha na própria imagem.
Enquanto eu lia, uma música ecoou na cabeça: Sampa, de Caetano Veloso. “É que Narciso acha feio o que não é espelho.” É exatamente isso que Han denuncia. Quando não há diferença, quando não há confronto com o novo, a gente deixa de ver o mundo e vê apenas reflexos de nós mesmos.
Caetano continua: “À mente apavora o que ainda não é mesmo velho.” E Han concordaria. O excesso de positividade, a autossuficiência e a autoexigência constroem um muro invisível ao nosso redor. Nada que é estranho entra. Nada que é diferente toca. Nada que desafia transforma. A vida perde textura.
Transformação exige atrito. Exige pausa. Exige o outro.
O espelho conforta, mas é o mundo, com sua diferença, que expande.
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