Prof. Valdir: o yeti da sabedoria
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“Quando tratamos a gratidão como obrigação, confundimos reconhecimento com obediência.”
Desde pequeno, meu pai e minha mãe me ensinaram uma palavrinha mágica que abre portas: obrigado. Esse é um ensinamento que passo ao Otávio e que espero que ele repasse aos seus filhos. Toda vez que ele ganha alguma coisa, ou alguém faz algo por ele, a pergunta vem sem pensar:
“Como é que se fala?”
Ensinar essa palavrinha mágica faz parte da educação. Ela é apenas uma das inúmeras maneiras de reconhecer o gesto de outra pessoa. Mas dizer “obrigado” não garante que exista gratidão por dentro. Já dizia o velho deitado no pé do morro:
“Falar, até papagaio fala.”
O agradecimento pode ser ensinado como comportamento, mas a gratidão precisa ser reconhecida e sentida. Isso não torna a palavra falsa ou desnecessária, mesmo porque vivemos em sociedade, e a convivência também depende de gestos, respeito e educação. Nem todos os nossos sentimentos aparecem imediatamente, e nossas atitudes não precisam esperar por eles o tempo todo.
E sim, existe uma diferença entre agradecer de coração, agradecer por educação e ser obrigado a sentir gratidão.
A primeira é o sentimento genuíno, a segunda é pela convivência… já a terceira? Pertence a cada pessoa.
Quando alguém faz alguma coisa por nós, podemos reconhecer o gesto e nos sentir gratos. Também podemos retribuir, cuidar daquela relação e guardar o que recebemos com carinho. O problema começa quando o gesto é utilizado para controlar nossas escolhas.
“Depois de tudo o que fiz por você…”
Assim, dependendo do contexto em que é dita, essa frase transforma o passado em uma espécie de contrato que nunca soubemos ter assinado. Logo, aquilo que parecia um presente passa a ter um preço. E o “favor”? Esse vem com juros, multa e correção. Quem “ganha” começa a se sentir cobrado não apenas por gratidão, mas por concordância, disponibilidade e obediência.
Dizer que não espera nada em troca, mas lembrar do que fez ou deixou de fazer mostra que a conta continua aberta. Enfim, quando oferecemos alguma coisa apenas para cobrar depois, não oferecemos, apenas negociamos sem revelar o preço.
Reconhecer o que alguém fez por nós, ou para nós, não significa entregar a essa pessoa o controle sobre aquilo que faremos dali em diante.
O Cacos do Caco alerta:
Agradecer e estabelecer limites para que aquilo não seja utilizado contra você em um tribunal é recomendado e completamente aceitável.
Não somos ingratos por não conseguirmos agradecer imediatamente por uma perda, uma decepção ou uma experiência dolorosa. Certas coisas precisam ser apenas vividas e lamentadas. Também não somos obrigados a transformar todas as experiências em lições, presentes ou motivos de agradecimento. A gratidão não perde seu valor quando demora a aparecer. Ela perde quando somos obrigados a fingir que a sentimos.
Por isso, antes de dizer a alguém pelo que e como deve agradecer, precisamos entender o que estamos realmente fazendo.
Estamos ajudando essa pessoa a ampliar o olhar ou exigindo que ela minta sobre o que sente?
Mais um caco espalhado por aí…
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