Memórias de um Discman: Nostalgia em forma de música
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A atenção não cria o momento. Ela nos permite reconhecer sua importância.
Algumas coisas que escrevemos só fazem sentido de verdade quando a vida resolve colocá-las diante de nós. Há algum tempo, inspirado por uma leitura de Byung-Chul Han, escrevi um texto chamado Vi, mas não olhei.
Naquele texto, falei sobre a diferença entre ver o que está à nossa frente e realmente prestar atenção. Vivemos cercados por estímulos, tarefas, preocupações e cobranças. A mente continua funcionando, mas entra no automático. Muitas vezes enxergamos aquilo que acontece, mas nem sempre percebemos o que estamos vivendo.
Terminei aquele texto com uma frase:
Às vezes, não falta tempo. Falta olhar.
Naquele domingo com o Otávio, tempo não faltou. Passamos o dia juntos. Assistimos ao jogo, jogamos videogame e colamos algumas figurinhas no álbum. Eu vi tudo isso acontecer e, mesmo assim, quando chegou a hora de levá-lo embora, fiquei com a sensação de que não tínhamos feito nada de especial. Eu havia visto, mas não tinha olhado.
Foi o Otávio quem chamou minha atenção para aquilo que estava diante dos meus olhos. Para ele, o domingo não estava vazio. Estava cheio de coisas que havíamos feito juntos. O problema não era a falta de acontecimentos, era o meu enquadramento.
Na fotografia, o enquadramento é um fundamento básico que deve sempre ser estudado. Uma cena bem enquadrada mostra muita coisa. Sendo bem clichê, ela mostra mais do que os olhos podem enxergar. O enquadramento direciona o olhar ao que realmente importa. Quando apontamos a câmera para algum lugar, precisamos fazer uma escolha. E não é sobre escolher o que deixar de fora ou não. É sobre dar a devida importância aos elementos que compõem aquela cena. Na vida, deveríamos fazer isso o tempo todo.
Quando nos lembramos de um dia, selecionamos aquilo que receberá nossa atenção. Podemos olhar para os planos que não deram certo, para os lugares aos quais não fomos ou para tudo o que gostaríamos de ter feito. Essas coisas fazem parte da cena, mas não são a cena inteira.
Naquele domingo, eu havia enquadrado apenas o que não fizemos. O Otávio me mostrou tudo aquilo que havia ficado fora da imagem: o jogo, o videogame, as figurinhas e, principalmente, o tempo que passamos juntos.
Meu filho não inventou um domingo melhor. Ele apenas enquadrou com mais atenção o domingo que tivemos.
Gratidão e atenção caminham juntas. Conseguimos agradecer por aquilo que reconhecemos. Não conseguimos sentir gratidão por aquilo que permanece invisível aos nossos olhos. Podemos ter pessoas ao nosso lado, viver momentos importantes e receber pequenos gestos de carinho sem reconhecer nada disso. A rotina é importante, mas ela nos leva a um caminho mais superficial. A mesmice dos dias diminui a importância dos pequenos feitos, dos momentos “ordinários”. E não porque esses feitos não tenham valor, mas porque nossa atenção estava em outro lugar.
Por isso, para mim, a gratidão não começa quando pronunciamos a palavra “obrigado”. Ela começa antes. Começa quando interrompemos o automático e prestamos atenção ao que está acontecendo. Quando reconhecemos uma presença, uma conversa, uma mensagem inesperada, uma refeição compartilhada ou alguns minutos de silêncio.
A gratidão não cria nem recria esses momentos. Ela nos permite reconhecê-los. Também não coloca um filtro bonito sobre a realidade. Não apaga aquilo que faltou, não resolve os problemas e não transforma qualquer experiência em algo bom. As miudezas completam o enquadramento. Os detalhes nos fazem enxergar o quadro de uma maneira diferente.
Sempre haverá motivos, pequenos, médios e grandes, para agradecer. Eles estarão em uma conversa no meio da correria, em alguém que se lembrou de nós, em uma companhia silenciosa ou em algumas figurinhas coladas no chão da sala.
Nós vemos essas coisas acontecerem, mas, vivendo no automático, nem sempre olhamos para elas.
Para mim, naquele domingo, não tínhamos feito nada. Hoje, entendo que tudo o que realmente importava estava diante dos meus olhos.
Não faltou tempo. Faltou olhar.
E você?
Mais um caco espalhado por aí…
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