Culpa – Sentindo os Cacos: Ep.6 – Parte 4
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Algumas saudades não vêm de lembranças, mas de possibilidades que nunca chegaram a acontecer.
Disse um sábio certa vez:
Saudade do que a gente não viveu.
Será que ele estava filosofando mais do que imaginamos?
Pensando bem, será que dá para sentir saudade de alguma coisa que nunca aconteceu?
Como vai sentir falta de uma lembrança que não existe?
A resposta parece absurda, mas sim, podemos sentir falta do que a gente não viveu. Podemos sentir falta daquilo que a gente imaginou. Uma viagem que nunca saiu do papel ou então de uma conversa que ficou para depois. Alguns sentem saudades de um relacionamento que quase aconteceu, outros do emprego que parecia certo.
A casa que você imaginou, ou aquela versão de você mesmo que, durante muito tempo, acreditou que seria. E, mesmo sem ter acontecido, tudo isso pode deixar uma espécie de vazio.
Quando imaginamos alguma coisa muitas vezes, começamos a construir detalhes.
Criamos um futuro inteiro na cabeça. Pensamos no lugar, nas pessoas e nas conversas. Sabemos o que iremos sentir quando aquilo finalmente acontecer. E é aí que começa a confusão.
Porque, quando esse futuro não chega, não perdemos exatamente uma lembrança, perdemos uma possibilidade. E possibilidades também deixam marcas.
Essas marcas não têm fotografias, datas ou testemunhas. Somente a certeza de que existiram em algum lugar entre aquilo que desejávamos e aquilo que acreditávamos que seria possível.
E, quando desaparecem, deixam uma ausência difícil de explicar.
A vantagem mais injusta naquilo que nunca aconteceu é que não teve tempo de dar errado. A viagem que não fizemos nunca enfrentou chuva ou teve algum percalço. Aquele relacionamento que não aconteceu nunca teve briga por causa de louça na pia.
O emprego que não conseguimos nunca teve um chefe inconveniente, ou então uma reunião que poderia ser e-mail ou até mesmo uma segunda-feira de manhã. Um futuro imaginado não precisa lidar com a realidade. E por isso é tão fácil sentir falta dele.
Enquanto a realidade é marcada por defeitos, a imaginação não. Aquilo que aconteceu carrega acertos, erros, frustrações e consequências. O que não aconteceu repousa intacto no pedestal da nossa imaginação, perfeito, exatamente como imaginamos.
Não, uma coisa não é igual a outra, existe uma diferença entre esses dois sentimentos. Sentir saudade do que não aconteceu não significa necessariamente arrependimento. Muitas vezes fizemos a escolha certa, sabendo que aquela mudança de rumo talvez tivesse nos levado para outro lugar completamente diferente. Sabemos que aquela porta fechada abriu outras, e mesmo assim, de vez em quando, aparece aquela pergunta inconveniente:
Se eu tivesse ido e dito sim? Mas e se tivesse esperado ou tentado um pouco mais?
Talvez essa seja uma das formas mais estranhas da saudade, aquela que não olha apenas para trás, olha para algo que nunca existiu, mas que poderia ter existido.
Lembro que certa vez me disseram:
Se minha avó tivesse rodas, ela seria um trator.
A gente passa boa parte da vida imaginando versões do amanhã. Algumas acontecem, outras mudam completamente e muitas simplesmente desaparecem pelo caminho. Isso não significa que fracassamos, significa apenas que a vida real não segue à risca o roteiro que escrevemos para ela.
Alguns futuros precisam deixar de existir para que outros possam começar. Logo, umas das coisas boas de amadurecer é aprender a sentir carinho por essas possibilidades sem precisar persegui-las. Assim, conseguimos reconhecer que elas fizeram parte da nossa história, mesmo sem terem acontecido.
Tudo aquilo que imaginamos diz alguma coisa sobre quem fomos, sobre o que desejávamos ser e sobre o que esperávamos encontrar. E sobre quem somos hoje.
Então, talvez o Neymar estivesse certo.
Dá, sim, para sentir saudade do que a gente ainda não viveu.
Só não sei se ele estava pensando em tudo isso quando escreveu a mensagem.
Mas, se estava… confesso que aí subestimei o menino Ney.
E você? Já sentiu saudade de alguma coisa que nunca aconteceu?
Mais um caco espalhado por aí…
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