Medo e autoconhecimento – Sentindo os cacos: Ep. 1
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Nem todo dia é colorido — e está tudo bem com isso. Imagem: ChatGPT
“Do branco até chegar ao preto, existe uma grande área cinza que precisa ser explorada.” — Caco Oehlmeyer
Um belo dia, após uma forte chuva, o arco-íris apareceu no céu. Reluzente e colorido, assim como um pavão, ostentava no firmamento sua viva e vibrante paleta de cores. Formoso e imponente, — e também com uma presunção jamais vista — reinava sozinho naquele céu de brigadeiro. Afinal, não havia uma única nuvem para distrair sua atenção.
Os passarinhos, intimidados com presença tão ilustre, ao vê-lo no céu, voltavam para seus ninhos e árvores. Assim, eles não se sentiriam desconfortáveis em voar próximo a ele, com tanta beleza irradiada. Ele, vaidoso – alguns diriam metido – observava, de cima, os campos e planícies, bradando aos 4 ventos:
Olhem como sou bonito, como trago alegria! Contemplem minha grandiosidade.
A cor Cinza, enquanto isso, com o olhar perdido e pensativo, sentado em cima de uma pedra, lamentava:
— Ninguém gosta de mim… — dizia, suspirando e riscando o chão com um graveto.
— Dizem que sou triste, sem graça, chato… Que sou a cara da solidão. Ninguém quer passar um dia comigo.
O Arco-íris, escutando aquele desabafo, suavizou o brilho e, descendo devagar do alto do céu, pousou ao lado do Cinza e disse com um tom sereno, quase fraternal:
— Ah, como você é tolo por pensar assim.
O Cinza ergueu os olhos, surpreso.
O Arco-íris continuou:
— Eu sou admirado, é verdade… Porque apareço raramente. As pessoas não me veem todos os dias, portanto, se encantam comigo. Já você, está em todo lugar. É você quem prepara o palco para minha entrada. Pois, sem sua presença nos dias chuvosos, eu nem existiria. Eu sou o aplauso, mas você… é o espetáculo inteiro.
— Eu?
— Sim. Você é a rotina, Cinza. É nos seus dias que as sementes crescem, que os encontros acontecem, que as histórias se constroem. Por isso mesmo, sem você, o mundo seria cansativo demais — sempre vibrante, sempre em festa… e, convenhamos, ninguém aguentaria isso por muito tempo. Afinal, você é a base, o chão firme, o silêncio necessário entre duas canções.
O Cinza sentiu o peito aquecer. Pela primeira vez, viu beleza em sua própria simplicidade. E, naquele instante, olhou para o céu — ainda havia um restinho de arco-íris lá no alto — e sorriu de leve.
O arco-íris já se desfazia, voltando para seu descanso nas nuvens. Ainda assim, antes de partir, lançou um último olhar ao amigo e disse:
— Quando alguém me admirar, lembre-se: é por sua causa que eu existo.
Desde aquele dia, o cinza nunca mais se sentiu sozinho. Ele descobriu que até os momentos mais coloridos precisam de um fundo neutro para brilhar. E que ser rotina não é ser menos — é ser tudo o que dá sentido ao que vem depois.
Mais um caco espalhado por aí…
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