Um retrato que explica, mas não encerra

31 de dezembro de 2025 - Categoria: Artigos, Filosofia Barata, Inspiração, Ruídos Filosóficos
Ilustração de um homem pensativo sentado à mesa, apoiando o queixo na mão, cercado por livros, papéis, gráficos e uma xícara de café. Ao fundo, números coloridos flutuam, simbolizando lógica, estrutura e pensamento, em contraste com um ambiente acolhedor e reflexivo.

Nem tudo que somos cabe em relatórios, padrões ou classificações.

Recentemente, preenchi um relatório comportamental e de identidade. Desses que tentam organizar uma pessoa em traços, padrões, tendências. Ele fala de planejamento, organização, lógica, ética, cuidado com detalhes. Lendo, em muitos momentos, pensei: sim, “isso” sou eu.

Já vivi 10 anos a mil. Agora, quero viver mil anos a 10!

Ao longo de meus 40 e poucos anos, como resultado das experiências que vivi, desenvolvi em mim uma necessidade de estrutura. De dar nome às coisas. De criar método para não me perder no caos. Além disso, planejar sempre foi uma forma de segurança. Não no sentido de controle absoluto, mas como quem acende a luz antes de atravessar um cômodo escuro. Faz sentido.

Também reconheço o apego à qualidade. O incômodo com o que fica mal resolvido. A dificuldade de seguir adiante quando algo ainda não encaixou direito. Não é vaidade. É coerência. É a tentativa de fazer as coisas do jeito certo, ou pelo menos do jeito mais honesto possível.

Até aí, o relatório acerta.

Mas, como todo retrato técnico, ele para num ponto específico da estrada. Afinal, ele descreve bem como eu funciono. Não necessariamente quem eu sou.

Não dá para julgar um livro pela capa.

Porque há um pedaço de mim que não cabe tão bem em tabelas e classificações. No entanto, é um pedaço que vive de perguntas, não de respostas prontas. Que se interessa por filosofia, memória, tempo, medo, amor. Que escreve, compõe, observa, sente. Não de forma desorganizada, é verdade. Mas profundamente humana.

Dizer que tenho dificuldade com o abstrato é, talvez, confundir rejeição com exigência. Não fujo de ideias abstratas. Fujo de ideias vazias. Gosto do símbolo quando ele aponta para a vida. Da metáfora quando ela toca o chão. Do pensamento quando ele encontra o corpo.

“Penso, logo existo.” — Descartes.

Porém, não me vejo como alguém distante das emoções. Eu somente não as despejo sem antes entendê-las. Primeiro, penso. Depois, sinto de novo. E então, quando consigo, transformo em texto, em música, em imagem. Não é emoção reprimida. É  emoção elaborada.

Outro ponto curioso é a tal aversão ao risco. Sim, sou cauteloso com aquilo que sustenta a vida material. Mas, existencialmente, me exponho o tempo todo. Escrever sobre medo não é seguro. Falar de fragilidade não é confortável. Se mostrar inteiro nunca é neutro. Ainda assim, sigo firme e forte com meus ideais.

No fim das contas, esse relatório faz sentido. Muito sentido. Ele explica meu modo de operar no mundo. Mas não encerra a conversa. Não dá conta do que escapa. Do que transborda. Do que não cabe. Mesmo meu copo estando sempre meio vazio.

Talvez seja isso que eu mais tenha aprendido ao lê-lo. Somos sempre maiores do que os retratos que fazem da gente. E ainda bem.

Porque se fosse possível caber inteiro num relatório, a vida seria pequena demais.

Mais um caco espalhado por aí…

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